Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Filosofia

Heidegger II: O Ser-aí como fonte de significado

Segundo o pensamento de Martin Heidegger, a existência humana depende da atribuição de sentido dada pelo próprio ser-aí ( Dasein ) . Para ele, o ser humano é um ente singular, privilegiado, pois é o único capaz de questionar o ser e de interpretar o significado da existência. Não se trata apenas de "viver", mas de assumir a vida como um projeto contínuo de interpretação do mundo e de si mesmo . É essa capacidade de dar sentido que define o ser-aí e diferencia a existência humana de todos os outros entes. O Dasein não é simplesmente uma presença física no mundo. Ele está sempre em um modo de ser-no-mundo — ou seja, envolvido em relações, contextos e significações. A existência não é algo estático ou previamente determinado; é um processo em constante construção. O mundo, segundo Heidegger, não possui um sentido inerente, universal ou absoluto. Ele adquire significado a partir da forma como o ser-aí se relaciona com ele. Somos nós, enquanto Dasein, que possibilitamos que o mun...

Heidegger I: Ser versus Ente

 Na filosofia de Martin Heidegger, uma das distinções mais fundamentais é aquela entre ser ( Sein ) e ente ( Seiendes ). Essa separação é o ponto de partida daquilo que ele chama de ontologia fundamental , uma investigação não sobre o que as coisas são, mas sobre o que significa ser . O ente é tudo aquilo que existe de algum modo. Uma árvore, uma pedra, uma pessoa, um animal, uma cadeira, uma ideia matemática — todos esses são entes. Eles são as "coisas" do mundo, os objetos da experiência, da ciência e da técnica. Os entes possuem características, funções, podem ser descritos, medidos, classificados. No entanto, Heidegger aponta que, embora lidemos constantemente com os entes, raramente nos perguntamos o que significa que eles sejam . É aí que entra a noção de ser . Para Heidegger, o ser não é um ente , não é uma coisa entre outras coisas. O ser é aquilo que permite que os entes sejam compreendidos como entes . Ele é a condição de possibilidade de toda e qualquer existê...

O que é a Fenomenologia?

 A fenomenologia, enquanto corrente filosófica, nasce da exigência de um retorno radical àquilo que se manifesta — ao fenômeno — entendido não como aparência ilusória de uma suposta realidade oculta, mas como o próprio modo de ser das coisas em sua doação à consciência. Toda fenomenologia parte, portanto, da afirmação ontológica de que o fenômeno é primário, originário e autossuficiente como ponto de partida da experiência e da reflexão filosófica. O termo fenômeno provém do grego phainómenon , significando literalmente “aquilo que aparece”, “o que se mostra”. No entanto, sua acepção filosófica, sobretudo no contexto da fenomenologia, ultrapassa a oposição clássica entre aparência e essência. O fenômeno não é algo que oculta uma realidade mais profunda; ele é, ao contrário, a própria manifestação daquilo que se dá à consciência . O fenômeno é o ente tal como se mostra, e não como é em si mesmo , independentemente de qualquer relação com o sujeito. Nessa perspectiva, o fenômeno ...

Ontologia da Significação entre Fé e Razão

A presente reflexão propõe uma reconfiguração dos fundamentos ontológicos do real a partir da noção de atribuição de sentido . Sustenta-se que a existência não é anterior ao sentido, mas dele decorrente. Nesse modelo, tanto a razão quanto a fé deixam de ser instâncias epistemicamente hierarquizadas — onde a razão é tida como via legítima e a fé como crença inferior ou infundada — para serem compreendidas como manifestações distintas de uma mesma estrutura ontológica: o atribuidor de significado . É este que institui, sustenta e legitima a existência de tudo quanto é. Partimos da tese de que aquilo que chamamos “realidade” só se constitui como tal na medida em que é portadora de um sentido . Atribuir sentido não é um gesto posterior à existência do ente, mas é o próprio movimento que instaura sua existência como ente reconhecível, nomeável, vivenciável. Dessa forma, a existência não precede o sentido; ao contrário, é o sentido que torna algo existente, no plano da experiência, da lingua...